O NÃO COMO SUSTENTAÇÃO
- Talita Silva
- 18 de jun.
- 2 min de leitura
Atualizado: 26 de jun.

Vivemos rodeados de mensagens como “você pode tudo” e “basta querer”. Mas, na clínica, o que aparece são jovens angustiados, ansiosos e sem direção. Na perspectiva psicanalítica, o excesso de liberdade pode se tornar um vazio. Neste texto, vamos pensar por que o “não” — quando sustentado de forma simbólica e implicada — pode ser um gesto profundo de cuidado e proteção.
A partir desse imperativo constante: “você pode tudo, basta querer”, notamos como o discurso de superação individual e promessa de liberdade ilimitada tem alcançado também as crianças e os adolescentes. No entanto, na clínica, o que aparece como efeito desse excesso não é autonomia, mas angústia. Em vez de liberdade, o que vemos é desorientação, ansiedade e sofrimento silencioso.
Na psicanálise, especialmente na leitura de Lacan, entendemos que a angústia aparece quando não há uma borda, quando nada barra. Pode parecer contraditório, mas negar também constrói possibilidades. Quando não existe um limite simbólico que diga “por aqui não”, o sujeito se vê diante de um vazio que não organiza.
Na parentalidade, isso se traduz no gesto ético de barrar sem apagar. O “não” que os pais oferecem pode funcionar justamente como essa borda simbólica. Quando sustentado com escuta e presença, esse não” não é um corte arbitrário (não é grito, punição nem desamparo), mas um contorno que ajuda a criança a se localizar e sustenta o desejo, em vez de anulá-lo - “não se pode tudo, mas mesmo assim, é possível seguir desejando outras coisas”.
Um “não” dado com escuta e implicação pode ser mais libertador do que mil permissões vazias.
Ele permite que a criança deseje com direção, ao invés de se perder no excesso de possibilidades. Num mundo que promete tudo, oferecer um “não” pode ser um dos maiores atos de cuidado. Porque nossos filhos não precisam de tudo. Eles precisam de alguém que os ajude a não se perder nesse tudo.
Cada vez mais escutamos crianças e adolescentes atravessados por sintomas angustiados, ansiosos, inquietos — sintomas que, muitas vezes, são formas de pedir um “não”. Um corte. Um contorno. O adolescente que diz “não sei o que quero da vida” talvez esteja dizendo também: “me perdi no meio de tantas possibilidades, e ninguém me ajudou a nomear o que era possível para mim”.
Importa dizer: nem todo “não” é limite — e nem todo limite produz esse efeito simbólico. O que estamos chamando de “não que sustenta” aqui não é uma regra autoritária ou uma censura sem escuta. É um gesto ético. Esse “não” não se impõe como ordem, não enclausura — ele organiza. Ele não apaga — ele inscreve o sujeito num mundo possível.




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