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INTIMIDADE: UM LAÇO NO ABISMO

Atualizado: 19 de jun.

Vivemos em tempos de relações rápidas, muitas vezes fáceis demais, onde tudo parece acessível — uma mensagem, um vídeo, uma opinião. E com isso, a experiência da intimidade vai se tornando cada vez mais rara. Há um certo esvaziamento afetivo nas formas como temos nos relacionado que me faz pensar que talvez o problema não seja a falta de relações, mas o tipo de vínculo.


Pode parecer contraditório, mas quanto mais disponíveis estamos, mais escassos nos tornamos.


As conexões que firmamos hoje muitas vezes são funcionais, leves, descartáveis. E por isso mesmo, não dão conta de sustentar a profundidade que o desejo de intimidade exige. A intimidade tem sede de tempo, de implicação, de presença.


Por que a intimidade importa?

A intimidade tem um papel fundamental no nosso desenvolvimento psíquico: ela nos ajuda a construir um senso de segurança, de pertencimento, até mesmo de identidade. Mas há um grande equívoco quando se restringe a ideia de intimidade apenas ao ato de dividir a vida com alguém ou de saber detalhes do cotidiano do outro.

Intimidade não é sinônimo de transparência total, não precisamos saber tudo, pelo contrário nada mata mais a paixão do que dizer "sei disso porque eu te conheço". Pronto, não há nada mais que eu precise conhecer sobre você - eis aí a crise de muitos casais.


Por isso, é mais interessante pensarmos na intimidade como a sustentação de um espaço onde não precisamos fingir consistência. Onde há um espaço de partilha com o outro em que podemos nos mostrar para além da performance, abrindo espaço para as contradições, os medos, os pedaços inacabados de nós. Sentir que, mesmo com o que não se sabe, seguimos juntos.


O desejo de que o outro seja perfeito

Na infância, temos uma certa obsessão por eleger o favorito: o melhor amigo, o brinquedo preferido, a música predileta. Buscamos o único, o insubstituível. Essa lógica, muitas vezes, se estende para a vida adulta.


Esperamos que as relações ocupem esse lugar mítico: que o outro nos compreenda sem falhas, que esteja sempre disponível, que nunca nos frustre. E quando algo escapa a essa expectativa, o laço se rompe.

“Ele não me considerou.”

“Ela não pensou em mim.”

Falei um pouco mais sobre isso nesse texto aqui.


Mas o amadurecimento afetivo passa - inevitavelmente - por reconhecer que o outro não será sempre como esperamos, muito menos ser idêntico a nós mesmos. E isso não significa ausência de afeto. Significa, antes, o reconhecimento de que há um espaço entre o que somos e o que o outro é — e que é justamente aí que se constrói a intimidade.


Entre nós, um intervalo

A psicanálise lacaniana nos ensina que a relação com o outro nunca é de encaixe perfeito. Existe sempre um ponto onde algo escapa, onde a alteridade se impõe.


Esse lugar onde nos deparamos com o estranho em nós ao olhar para o outro nos permite notar o que normalmente esconderíamos. Essa é a ideia de estimidade apresentada por Lacan como um "inverso" da intimidade.


Um tipo de vínculo que nos sustenta inclusive quando nos sentimos inseguros, quando esse outro oferece uma presença onde podemos deixar aparecer aquilo que em nós também é incerto.


Por isso, penso que a intimidade esteja mais intrinsecamente ligada não as relações com quem aceita o que permanece desconhecido e ainda assim permanece, do que com quem “conhece tudo sobre o outro”.

Em tempos onde, cada vez mais, há uma busca por se relacionar apenas com o compatível (matchs, conversas com uma inteligência artificial programada pra concordar com o que é dito, polarizações), é fundamental lembrar que não precisamos apagar as diferenças, devemos aprender a habitá-las sem que isso ameace o laço.

Para finalizar, deixo aqui uma citação dos psicanalistas Lucas e André que me inspiraram a escrever sobre o tema:


“A gente pensa em intimidade como proximidade, mas talvez ela seja mais sobre sustentar um abismo entre sujeitos. Existe um abismo entre nós — e ainda assim, eu consigo te tocar, te sentir, te escutar e me sentir escutado. Isso é íntimo.”

Talvez seja essa a pergunta que a intimidade nos faz: quem, na sua vida, te permite permanecer inacabado?


Abraço,

Talita Reame.



 
 
 

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©2022 por Psicóloga Talita Reame.

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